Sul de Floripa

Demolição em Naufragados gera revolta da comunidade em Florianópolis

Demolição em Naufragados gera revolta da comunidade em Florianópolis 1

A demolição de ranchos de pesca, bar e restaurante na Praia de Naufragados, no Sul da Ilha de Florianópolis, realizada nesta quarta-feira (22), por determinação da Justiça Federal, provocou forte repercussão e mobilização da comunidade local. As estruturas estavam em Área de Preservação Permanente (APP) e em terreno de Marinha, conforme apontado nos processos judiciais que tramitam há mais de 25 anos.

A ação foi executada pela Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram), que informou ter apenas cumprido a decisão judicial. Os imóveis pertenciam aos pescadores Andrino Santino Borges e Flávio Argino Martins, moradores tradicionais da região.

Um dos casos mais emblemáticos é o do Bar e Restaurante do Andrino. Com mais de 60 anos de história em Naufragados, o pescador, atualmente com cerca de 80 anos, é reconhecido por moradores como parte da identidade local e por ter contribuído na consolidação da trilha de acesso à praia. A sentença de demolição do imóvel é de 2006 e também previa a desocupação da área.

Segundo a Justiça, as construções estavam irregulares por ocuparem área ambientalmente protegida. A defesa de um dos proprietários, no entanto, questiona a seletividade da medida, apontando a existência de outras estruturas em situação semelhante que não teriam sido alvo de demolição, o que, segundo o advogado, gera insegurança jurídica.

Comunidade manifesta indignação e levanta questionamentos

A repercussão entre moradores, frequentadores e comunidades do Sul da Ilha foi imediata. Nas redes sociais, predominam manifestações de tristeza, indignação e críticas à forma como a ação foi conduzida.

Entre os principais pontos levantados pela comunidade estão o impacto humano da decisão, especialmente pelo fato de envolver um morador idoso com longa trajetória no local, e a percepção de desigualdade na aplicação da lei.

Comentários destacam o caráter simbólico da demolição, associando o episódio à perda de memória e identidade cultural da região. “Não é apenas uma casa, é a história sendo destruída”, relatou um morador. Outros ressaltam o sofrimento da família atingida e questionam a prioridade da ação diante de outros problemas considerados mais urgentes.

Também há críticas sobre possíveis diferenças de tratamento entre moradores tradicionais e grandes empreendimentos, com questionamentos sobre a fiscalização em outras áreas da cidade, incluindo regiões com maior presença econômica.

Parte das manifestações ainda levanta dúvidas sobre quem teria motivado a denúncia inicial e cobra mais transparência nos processos que envolvem ocupações em áreas protegidas.

Caso reacende debate sobre preservação ambiental e permanência de comunidades tradicionais

A situação em Naufragados reacende um debate recorrente em Florianópolis: o equilíbrio entre a preservação ambiental e a permanência de comunidades tradicionais em áreas historicamente ocupadas.

De um lado, a legislação ambiental prevê restrições rigorosas em Áreas de Preservação Permanente e terrenos de Marinha. De outro, moradores e lideranças comunitárias defendem o reconhecimento da história, da cultura e do modo de vida dessas populações.

Enquanto isso, a retirada dos entulhos e os próximos passos após a demolição ainda não foram detalhados oficialmente pelo poder público até a última atualização.

A Praia de Naufragados é considerada uma das áreas mais preservadas e isoladas da ilha, com acesso restrito por trilha ou via marítima, e abriga importantes marcos históricos, como o farol e o antigo forte. O caso segue gerando repercussão e deve continuar no centro das discussões sobre território, meio ambiente e justiça social na Capital.